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Agridoce

Um mundo à tua medida!

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11/11/18

Debaixo da Torre Eiffel

Costumam dizer que para ver o mundo temos de subir a um ponto alto, temos de ver as luzinhas lá em baixo a piscar, a vida das pessoas a correr debaixo dos nossos pés. Temos de nos sentir pequenos.

Em Junho subi à Torre Eiffel, presenciei a sensação incrível de me sentir o ser humano mais pequenino do mundo mas não aprendi nada sobre o mundo, não aprendi nada sobre a vida,a vista do pôr do sol sobre a cidade da luz foi linda mas isso não me foi suficiente para sentir o infinito.

Acho que quem diz que se vê o mundo com mais claridade do topo da Torre Eiffel nunca a desceu de verdade, nunca sentiu o vento quente de julho a bater-nos na cara enquanto corremos escada abaixo a olhar a cidade nos olhos por entre os buraquinhos metálicos.

Quem diz que se vê o mundo com mais claridade do topo da Torre Eiffel nunca decidiu parar a meio da descida para apanhar o folgo e admirou as cores de azul do céu a misturarem-se com adrenalina presa no nosso coração.

A verdade é que não percebia nada sobre o mundo até descer a Torre Eiffel, até chegar por fim ao fundo das escadas e me deitar debaixo dela. 

Ali, deitada debaixo da Dama de Ferro, com o chão de cimento ainda quente a bater-me na minha pele fria percebi melhor a vida do que algum dia a tinha percebido. Ali deitada, debaixo do sítio ao qual milhões de pessoas subiram, a ouvir os passos de centenas de pessoas a ecoar nos meus ouvidos, senti paz. Não o tipo de paz momentânea que dura apenas alguns segundos para desaparecer logo a seguir mas sim a calma que se instala devagarinho no nosso coração e permanece durante muito tempo.

Ali, no coração de Paris senti como se o mundo e eu estivéssemos a dialogar, percebi que talvez os dias cinzentos não vão ficar para sempre, percebi que a paz existe algures num lugar deste mundo e sentia na ponta dos dedos como algo palpável. 

Todos nós temos a nossa Torre Eiffel, a nossa seta que mostra que afinal de contas existe uma luz ao fundo do túnel.

Foi ali, debaixo da Torre Eiffel que percebi aquilo que muitos apenas descobrem quando a sobem.

04/10/18

Je suis Charlie

Terrorismo. Por definição é o ato de provocar terror nas pessoas através do uso da violência física ou psicológica, com o intuito de intimidar uma sociedade e impingir ideologias .

Não me lembro ao certo quando ouvi o termo pela primeira vez mas lembro-me exatamente como me senti, como quando achamos que acidentalmente falhamos uma escada e a na nossa barriga cresce o friozinho que antecipa a queda. Com o tempo a palavra tornou-se tão usual mas continua a causar-me o mesmo sentimento, afinal não importa quantas vezes falhemos uma escada ficamos sempre assustados com a dor que pode vir a seguir.

Dia 15 de janeiro de 2015, estava doente, deitada no sofá quando nas notícias começaram a aparecer imagens chocantes. Charlie tinha sido assassinado simplesmente porque tinha usado o direito de expressão para fazer um cartoon da religião Islâmica. O mundo chocou-se e todos nós fomos Charlie, todos nós sentimos a dor de Charlie, todos nós sofremos uma espécie de luto não muito doloroso que durou uns dias. Com o tempo Charlie deixou de ser importante e nós por consequência deixamos de ser Charlie.

 

13 de novembro de 2015, estava a jantar com os meus pais quando um barulho alarmante veio da televisão da sala e todos fomos ver o que se passava. O terror espalhado nos olhos de quem contava as notícias. Outro atentado em França, desta vez no teatro do Bataclan. O mundo chorou com Paris e todos nós fomos Paris, porque as vítimas não mereciam morrer e a vida humana é demasiado preciosa. Milhares de flores espalharam-se pelo chão das ruas onde inocentes foram mortos, lágrimas derramadas, indignação. E depois, pouco a pouco, Paris deixou de ser o título da primeira página do jornal e todos nós a pouco e pouco deixamos também de ser Paris.

A seguir a estes atentados muitos outros se seguiram, alguns grandes outros mais pequenos mas todos imensamente chocantes e devastadores para a integridade humana.

No entanto maior parte de nós tem memória curta. Quando é que foi a última vez que algum de nós pensou sobre Paris? Sobre Bruxelas? Sobre Charlie? Sobre as Torres Gêmeas?

Porque é que só pensamos nas coisas no momento imediato em que nos afetam e não a seguir? Será que lembrar a vida humana tem data de validade?

A verdade é que não sei, mas, passe o tempo que passar uma parte de mim vai sempre ser Charlie. Uma parte de mim vai sempre ser Paris. Uma parte de mim vai sempre ser Bruxelas.

Na minha opinião nunca se está fora do prazo para se lembrar algo que nunca devia ter acontecido.

02/10/18

A vida dos outros da minha varanda

Às vezes ponho-me à varanda, com o frio da noite a bater-me na cara ou os primeiros raios do sol a aquecer-me a alma, com a chávena de café e a manta no regaço e vejo as pessoas a passar.

Pessoas que passam de forma tão apressada e absorta na sua própria vida que não dão por mim, rapazes com as mochilas às costas e de auscultadores no ouvido. Pais, mães e avós atarefados com tudo e com nada e meninas com lacinhos no topo do cabelo que saltitam pela rua fora com a felicidade por uma mão e a mãe pela outra.

Pessoas cujas vidas davam um filme, que podiam ser as protagonistas de um livro se só por uma fração de segundo as olhassemos de perto. 

Às vezes ponho-me à varanda, com o meu caderninho vermelho equilibrado numa perna e a chávena de café na outra e imagino a vida de cada uma deles.

Dos meninos que passam tão normalmente com os auscultadores nos ouvidos e um ar despreocupado mas que passaram a noite na cama a chorar por causa de uma rapariga que lhes partiu o coração e o ego frágil e os transformou numa versão de rapaz pouco parecida com eles próprios.

Dos pais, das mães, dos avós que passam num carro vermelho desbotado, nos seus olhos a preocupação de quem dormiu pouco o dia anterior porque as contas estão para pagar na mesa da cozinha e os seus três trabalhos não chegam para sustentar a casa.

Das meninas com lacinhos no cabelo, que pensa que a vida é feita de alegria e felicidade e nunca viu dor na vida mas que um dia serão magoadas por rapazes como aquele que passam com os auscultadores porque inocentemente pensaram que a maneira de curar um coração partido é partir o delas. Das meninas que levam a mãe pela mão como se adivinhassem que um dia vão ter de lhe limpar as lágrimas que escorrem enquanto ela está sentada na mesa da cozinha, a olhar para as contas e a fazer contas à vida que por essa altura devia ser muito melhor.

Da minha varanda vejo as rachas na vida dos outros, vejo a dor, vejo a forma como todos são conectados por uma linha tão tenue que às vezes parece nem existir mas que está lá a cada momento.

Da minha varanda vejo todos os finais felizes que ficaram por acontecer. Mas também vejo os que acontecem todos os dias, a senhora que pega no telemóvel e chora de alegria ao saber que vai ser avó, o rapaz que sabe que conseguiu a bolsa para ir estudar para fora e a mulher que é pedida em casamento.

Às vezes ponho-me à varanda, com o meu caderninho vermelho equilibrado numa perna e a chávena de café na outra, e imagino a vida de cada um deles que passam demasiado apressadamente para reparar em mim.

Às vezes olho para a vida dos outros pela minha varanda e pergunto-me se nos momentos em que estou no meu mundo de sonhos alguém parou a olhar para mim e imaginou a minha. 

A verdade é que nunca saberei mas é por isso que a vida é para ser vivida e não imaginada, é quando saio da varanda e paro de imaginar a vida dos outros que percebo que é tempo de viver a minha e dar a mim mesma um final feliz.

30/09/18

Recomeçar

A vida é feita de inícios e fins, feita de linhas de partida e metas.

No último ano tirei tempo para mim, tempo para passar por muitas linhas de partida e cruzar muitas metas, mas é verdade quando se diz que voltamos sempre às nossas origens e aqui estou eu, pronta a recomeçar uma etapa da minha vida que deixei inacabada.

Pronta a pegar no espaço em branco que as páginas deste blog nos oferece e transformá-lo em palavras, pronta a inspirar quem quiser ser inspirado por mim e ouvir da sabedoria de quem me quiser ensinar uma coisinha ou outra.

Durante este ano que estive fora deste espaço que continua a ser tão meu, cresci, ainda sou uma miúda que não sabe onde quer ir mas agora sei mais quem sou.

A vida é feita de aventuras, mas também é feita de aprendermos a agarrar novas sem não deixarmos as velhas irem. E aqui estou eu a agarrar de novo uma velha aventura e torná-la nova.

Espero ficar aqui por muito tempo

Com amor,

Mia

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